Sobre dublagens

Para quebrar o jejum de mais de doze meses sem atualização desse blog, eu retorno postando aqui a entrevista sobre dublagens cedida ao programa "Balanço Geral" em 10/01/2014. Mas antes, pra retomar uma conversa, talvez seja interessante dizer como ela se sucedeu.

Uma colega da área do Audiovisual daqui de SJC/SP entrou em contato comigo em meados de novembro de 2013 dizendo que alguém da Record entraria em contato comigo pra tratar acerca de dublagens, pois afinal eles queriam uma pauta sobre a preferência do público brasileiro pela dublagem em detrimento da legendagem. Eu disse ok, afinal esse me seria um tema familiar e, além disso, ele já andava pelos editoriais ao longo do ano de 2013. A Record entrou em contato em dezembro, porém a entrevista só veio a ser marcada em janeiro no Shopping Colinas.

A equipe quis filmar na porta do complexo de cinema do Shopping e foi tudo muito rápido, "um, dois e gravando... " e uma série de perguntas sobre a qualidade da dublagem brasileira, sobre os custos de um filme dublado e, então, quais os motivos da preferência pública pela dublagem. Frente a essas questões, a minha preocupação era levar em conta que o "Balanço Geral" tem média de 10 pontos no Ibope, ou seja, ele alcança diariamente uns 650 mil domicílios desde a Baixada Santista até o Vale do Paraíba. Então, procurei valorizar o cinema dublado a fim de promover adesão à ideia de que "tanto a dublagem quanto a legendagem" são diferentes traduções do filme. (Tudo bem, eu sei que isto pode ser questionável, entretanto seria motivo para outra plataforma de mídia...)

Eis a entrevista:

PS: Para encerrar, destaco que o registro original durou cerca de dez minutos. E há alguns detalhes que foram suprimidos na edição, como por exemplo:

01. Dublar é um negócio caro. Geralmente, os filmes dublados chegam a custar duas ou três vezes mais do que os filmes legendados devido ao número de profissionais envolvidos e todo o processo de finalização;

02. A dublagem brasileira é considerada entre as melhores do mundo devido à qualidade dos nossos artistas. Uma rápida pesquisa no youtube demonstra que há muitas reportagens sobre o tema devido à curiosidade que o público tem em saber quem são os "verdadeiros donos das vozes" que eles sempre ouvem. Dentre as muitas referências, recomendo esta produção da HBO;

03. Segundo o portal "filmeb" a cidade de SJC registrou uma média de 2,0 ingressos/ per capita no ano de 2012 - e esta é uma média alta para uma cidade com cerca de 650 mil habitantes. O detalhe importante é que mais da metade desses ingressos tiveram como destinos filmes dublados. Portanto, os registros em torno do mercado de SJC podem servir como uma boa referência para se estudar o mercado nacional.

Abraços!
Fábio Monteiro

natalie portman em "free zone"


Aqui, a cena inicial de "Free Zone" dirigida por Amos com uma simples conversa com Natalie Portman sobre suas lembranças na Guerra do Yom Kippur. No mais, a interpretação ficou por conta da trilha sonora.

Cena das mais belas na filmografia de Amos Gitai.

Abraços!
Fábio

Do encontro com Amos


Um Certificado assinado pela Renata de Almeida! Esta que foi a grande companheira de Leon Cakoff, o fundador da Mostra de Internacional de Cinema de SP e falecido em outubro do ano passado. Hoje, a Renata é que comanda a Mostra frente ao intenso e concorrido calendário de exibições cinematográficas que tem assolado, no bom sentido, o Brasil.

Mas aqui escrevo para traçar umas breves palavras sobre outra grande cabeça cinematográfica, a de Amos Gitai. O cineasta israelense chegou com uns quinze minutos de atraso na FAAP naquela 2º feira. Ele trajava um blazer preto e ray bans numa tarde paulista infernal de quente. Nós, ali entre os concretos e vidros da FAAP, tínhamos suas reservas pessoais e intransferíveis de água mineral em mãos, um detalhe de cinema que me fez lembrar rapidamente de como realmente seria a "free zone" oriental, aquela fronteira que Amos visitou entre Jordânia e Síria.

Amos começou falando um pouco sobre sua biografia, de como foi influenciado pelo pai - um dos pioneiros do Exodus que fundou Israel nos 1948 - e de como a Guerra determinou sua escolha pelo cinema: após ter presenciado a cabeça do colega médico explodir ao se lado no helicóptero, ele arrumou suas coisas e foi pra França nos início dos 1980.

A França dos 1980 era bem diferente da de hoje. À época, um tom mais cosmopolita e, pode-se dizer, mais benevolente aos artistas e intelectuais estrangeiros. Sendo assim, Amos foi bem acolhido entre seus pares profissionais do cinema e buscou estabelecer uma cinematografia pautada, de acordo com ele, em suas memórias, nas lembranças de suas famílias e amizades e na biografia de suas fronteiras territoriais natais.

Ele exibiu trechos de alguns filmes como "Free Zone", "Alila" e "Um dia você ainda entender" e teceu comentários sobre eles. Particlarmente, a história mais tocante foi sobre como ele se envolveu com Natalie Portman: na verdade, foi ela quem procurou trabalhar com ele enquanto rodava a série "Star Wars". "Claro que jamais teria condições de pagar os U$ 6 mi que ela recebia de cachê pela série, então quase me esqueci do convite..", Amos disse. Mas depois de seis meses, seu agente chamou sua atenção ao fato de que "não seria de bom tom fazer a Srta. Portman esperara tanto assim", risos na plateia.

No mais, ele se mostrou um profissional muito competente, dono de suas histórias, dedicado a ser um "arquiteto da memória", como ele se afirmou. Arquiteto de formação, Amos disse que não gosta de ver filmes, que raramente se dedica à cinefilia. Poeta por paixão, enfrentou de forma franca à pergunta que não queria calar e só foi ousada no fim do dia: "o que o senhor pensa da Guerra Israelo-Palestina?", perguntaram. "It's a fuckin' shit", Amos respondeu sob risos...

Abraços!
Fábio Monteiro

Magna Aula com Amos Gitai

Tive a oportunidade de participar da Magna Aula de Amos Gitai que abriu a semana de workshops da Mostra de Cinema de SP/ 2012. 

Amos disse que nunca e ainda hoje não é cinéfilo, que não gosta de ver filmes e que, portanto, sua formação de Arquitetura ainda é a fundante do seu olhar cinematográfico. Ele exibiu trechos de "Kedma (2002)", "Kadosh (1999)", "Mais tarde, você vai entender (2008)" e de seu último filme "Canção para meu pai (2012)".

O sujeito é sério e dono de certa ironia. Começou logo pedindo ao público que fizesse algumas perguntas que norteassem a conversa, e assim foi. Ele falou sobre seus filmes a partir de sua biografia, contou como seu pai esteve envolvido na fundação do Estado de Israel, como suas lembranças de Guerra (Yom Kippur e Líbano) determinaram e ainda determinam seus roteiros e, hoje em dia, como ele busca se pautar pelas questões humanitárias no cinema.

Vale dizer que ele decidiu abandonar o Exército e (temporariamente) seu país e sair em busca do cinema na França após ver a cabeça de seu colega de voo explodir com um tiro certeiro enquanto ele pousava seu helicóptero de ajuda humanitária durante a Guerra do Líbano...



com Amos Gitai

Abaixo, o autógrafo de Amos Gitai na Magna Aula do dia 29/10 apresentada durante a 36º Mostra de Cinema de São Paulo.